23 de agosto de 2009

Laura Santos

é verdade, esta é uma questão que me atormenta repetidamente e sobre a qual tenho já reflectido longamente: se, por um lado, creio que a auto-suficiência deve ser bandeira da mulher moderna de esquerda, versátil entre o hemiciclo e o aspirador, que deve a laura santos ser a sua segunda doutrina, que deve aguardar o companheiro ao fim da tarde envergando um vestido leve de padrão floral, mas já com a perna de peru no forno exalando o vapor acre do colorau (ou qualquer alternativa vegan), por outro lado há ocasiões em que me apetece comprar uma jovem timorense, cambodjana ou tailandesa para me pôr a casa em ordem e o jantar na mesa depois da luta. e tão bem o zé diogo resumiu esta minha inquietação (a propósito da mandatária do PS que tem uma empregada que lhe descaroça as uvas). saiu hoje, na pública.

« Pode parecer estranho, mas para a Esquerda é desconfortável lidar com este género de ocupação profissional. Há uma relutância em admitir a sua existência. São pessoas que precisam de trabalhar, mas o seu trabalho contribui para que a burguesia se aburguese. Uma empregada lembra aos esquerdistas que nunca vai haver um mundo onde todos façam o mesmo, porque ninguém gosta de lavar a loiça. E a Esquerda tem vergonha em admitir que, por mais nobre e puro que seja o seu propósito, ainda assim precisa de alguém que lhe faça a cama. A grandiosa missão de salvar a humanidade não liga bem com as pequenas maçadas domésticas. É muito giro reformar o mundo, mas perde metade da graça se for feito com peúgas mal lavadas. Por isso é preciso (e peço desculpa se ofendo) "empregar" alguém para estas tarefas. »
José Diogo Quintela, em Uma empregada mal empregada